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Acronicos

Poemas e Poesias

A terra cheia de vida

Sobre o vazio de quem pensa demais

Sem data · 3 min de leitura

#poesia

A terra está cheia de vida
As árvores, cheias de fruto
O céu, cheio de nuvem
E eu, vazio

Quero escrever poemas
Contar histórias
Filosofar e pensar em filosofia
Mas as páginas dos meus cadernos estão vazias

Páginas vazias
Um peito vazio
Mãos trêmulas e letárgicas
Com uma cabeça cheia de pensamentos

Penso muito e sobre tudo

Penso sobre o fim do mundo
Sobre o começo de uma nova vida
Sobre o mundo
E sobre minha vontade de pertencer ao mundo

Acendo um cigarro
Aqueço a água para o mate
Abro uma página vazia
E penso que o que penso não cabe nela

Minha vontade é viva, cheia de vida
Minhas ideias são cheias de frutos
Mas a cabeça está cheia de nuvens
E as páginas continuam vazias

Quero o que quero
Mas não sei se querer basta
Esfrego as mãos, pego uma caneta
Mas continuo pensando

Agora penso sobre o pouco que tenho

Penso sobre as contas que paguei
Sobre as contas que tenho que pagar
Sobre o custo dessa vida que levo
E me pergunto se o preço que pago vale o esforço que tomo

Me esforço para achar a resposta
Mas são tantas perguntas
Que começo a me perguntar
Se o que quero é escrever sobre o que penso

Do alto das minhas ideias
No pico dessa montanha de pensamentos
Olho para dentro, para fora, para baixo
E me vejo no fundo de um vale

É uma depressão na terra

Um buraco fundo de onde vejo tudo que está acima
As nuvens
Os frutos nas árvores
A fumaça do meu cigarro

Vejo o mundo passando por cima da minha cabeça
E me sinto pequeno dentro de mim
Fora da minha pele
Debaixo de todos os debaixos que podem haver

O mundo não para de passar
E os pensamentos sobre o fim do mundo não passam
O vazio não se enche
E o que eu quero não passa de uma vontade de sair daqui

Quero sair correndo
Correr para o alto de uma montanha
Onde as nuvens são feitas de água
E não de pensamentos baixos

Vejo a terra rodando
E quero viver a vida da terra
Mas vejo essa vontade se enterrar
Numa montanha de vazios e nadas

Estou cheio de me sentir assim
Cheio de me importar com o que não importa
Cheio de correr atrás do que não quero
Cheio de ficar para trás

Estou atrasado para o trabalho
Começo o dia agitado
Como com pressa
E a tempo de me perder nos pensamentos outra vez

Uma vez achei que tinha superado esse vale
Que estava livre das suas entranhas
Longe da depressão que escoa água da chuva
Mas ainda chove em Bom Despacho

E estou atolado na lama que desce dos montes

Vejo meu gato brincando no quintal
Subindo no portão de casa
Voltando para pedir comida
Dormindo sobre um pedaço de tijolo

Ele corre e brinca como se não houvesse tempo
Porque não há
Não há tempo senão a nossa percepção do tempo
E o tempo me parece muito cruel

Parece que o relógio voltou a ser meu chefe
E o que se espera de mim, meu carrasco
Talvez eu acenda outro cigarro
E tente não pensar no tempo que tenho que ficar aqui


Possivelmente de 05 de janeiro de 2021


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