Contos e Crônicas
O nome do Dono da Fábrica
Um homem que sempre viu o amanhã e agora teme que ele chegue
O Dr. Dono da Fábrica despediu-se de seu médico.
A porta do consultório fechou-se e era hora de voltar, mas faltavam forças para se mover. Permaneceu onde estava, petrificado como quem se vê de cima, ou de fora, ou a dois passos e meio de si mesmo.
Diante daquele corredor havia um visionário, um homem de ação, um gigante agora apequenado e diminuto, rezando para algum Deus fazer o tempo parar. Esse velho homem, que sempre se orgulhou do dom de ver o amanhã, que era amigo do futuro e inimigo do passado, era também, agora, o primeiro a desejar que o futuro não viesse.
Pois o que via não era apenas aquele corredor: via a recepcionista abrindo-lhe a porta ao final do corredor; depois os degraus para a rua, e a rua, e o carro e o chofer. Via-se entrando no seu carro, e, da janela, veria as ruas mal iluminadas da capital desfilarem com parcimônia. Via os paralelepípedos carregando-o entre saltos e solavancos até o quarto do hotel. E via-se, então, levantando no dia seguinte para viver tudo aquilo outra vez.
Seria isso: clínica-chofer-hotel, e hotel-chofer-clínica, e chofer e chofer e chofer, até que, finalmente, fosse o carro funerário ou o próprio capeta a esperá-lo do lado de fora.
Da boca de seu médico, ouvia-se que os exames eram inconclusivos. Mas o que o Dono da Fábrica via era ato de frouxidão. Homens firmes tomam decisões, dizem sim!, ou não! Jamais talvez. Homens de verdade chegam a conclusões. “E dúvida de quê,” se perguntava, “todos sabem que morrerei!”. A morte o aguardava na esquina e Dr. sabia disso. Só não sabia em qual, nem qual morte. E talvez por isso suas pernas se recusassem a andar. Porque, apesar de lerdas, rapidamente concluíram que, se dessem um passo, o estariam levando para aquela morte. Dessem, ali, um passo, e o Dono da Fábrica morreria como apenas outro paciente da clínica.
E isso: isso era inadmissível.
Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para fugir daquele destino. Mas o que? Nada lhe vinha à cabeça. E, pensando em nada, permaneceu parado. Não se mexia, quase não respirava. E assim permaneceria até que a morte lhe viesse caso o seu médico não tivesse aberto a porta do consultório.
“Próximo”, chamou o médico. E teve que dar licença; teve que se mexer.
Deu o primeiro passo. Deu o segundo. E intercalados passos com o compasso da bengala, trilhou o caminho do inevitável. Como uma locomotiva, seguia apitando e bufando em direção à saída. Quanto mais avançava, mais se desesperava. A poucos metros da saída, ainda não tinha um plano. E sabia que se chegasse à rua sem um plano, seria seu fim.
Quis diminuir o ritmo das pernas, mas, mais devagar, só parando. E quis acelerar os pensamentos, mas já estavam a todo vapor. E enquanto suas pernas se recusavam a parar, seus pensamentos relutavam em avançar. Nessa briga, seguiu se arrastando até a porta da clínica. E, quando chegou à saída, o pior aconteceu: teve que sair desplanejado.
Pois saiu. E do lado de fora, ficou plantado sob a chuva. Estava desolado, o rosto pálido, os lábios quebrados, os joelhos trêmulos como nunca.
Quis vomitar.
Vomitou-se.
Vomitou-se pouco antes do chofer chegar com um lenço para limpá-lo, com um guarda-chuva para protegê-lo e com um braço firme para acompanhá-lo até o carro.
O Dono da Fábrica sentou-se no banco de trás e não disse uma só palavra; não moveu um só músculo. Em silêncio, seu motorista deu partida no carro. E, por prudência, partiu sem perguntar para onde ir.
Era como tinha previsto: o paralelepípedo o conduzia exatamente para onde não queria ir. Mas para onde ele queria ir? Não havia para onde. Não tinha um plano, não sabia o que fazer. Precisava arquitetar seu futuro, mas não conseguia. Não podia. As luzes da capital, a chuva na janela, o cheiro de estrume das ruas: aquilo tudo estava ali a muito tempo; em sua vida a mais tempo do que ele gostaria de lembrar.
Os saltos lembravam-lhe a carroça, os solavancos, o burrinho, a chuva, os dias de roça, a cidade, os dias de feira. Tudo aquilo lembrava-lhe de alguém enterrado no passado, mas cuja memória o assombrava ainda hoje. E quanto menos queria pensar naquilo, mais pensava. Afundava-se em si mesmo, e teria sufocado se não fosse por seu motorista:
“Estamos indo para a tabacaria, ou direto para o hotel?”, perguntou.
“Talvez…, não! Sim!”
“Sim?”
“Sim, homem! Disse que sim”, respondeu o Dr. com uma irritação sem tamanho. Estava zangado com seu chofer, mas reconhecia a bravura daquele homem. Depois de tudo que lhe fez passar até pouco, depois do estrago que causou, era preciso muita ousadia para falar daquele jeito. Mas sua bravura o inspirou.
"Coragem, velho!”, disse, do nada. “Se ele pode, você pode!”
Tinha poucas forças, mas suficientes para mudar seu destino. Não seria a primeira vez que o faria. Fez-se rico, fez-se doutor; fez o que bem quis da vida: por que faria diferente com a morte? “Hei de entrar para a história, então”, e decidiu-se. “Morrerei, mas meu nome viverá para sempre!”
Só lhe faltava saber como.
Sabia que pensaria em algo, mas precisava de um lugar propício aos seus pensamentos. Não poderia ser no hotel. Não poderia ser na tabacaria. Tinha que ser lá. E foi assim que o motorista enfim soube para onde ir. Depois de alguns instantes de constrangimento, vendo seu patrão balbuciar palavras ininteligíveis no banco de trás, recebeu a ordem: “Vamos para o meu escritório!”
“Seu escritório? Na fábrica?”, perguntou o motorista.
“Para onde mais, homem? Que outro escritório eu tenho?”
“Mas chove…”
“E?”
“E tá de noite…”
Aquela ousadia enfureceu o Dono da Fábrica. Uma coisa é ter coragem, outra é não ter educação. Onde já se viu um motorista se recusar a dirigir!
“E eu tenho pressa, homem! Eu tenho pressa! Faça questão de chegarmos ainda hoje...”
Tinha que chegar hoje.
Hoje: o dia do ano em que ele queria não ser visionário; o dia em que seu passado o assombra com ainda mais força; o dia do aniversário da morte de seu pai. Seria demais ter que passar esse dia na cidade. Na cidade em que seu pai o apresentou, em que o ensinou a ser homem. Seria demais reviver tudo aquilo. Seria ainda pior morrer em meio àquilo. Queria sair dali a todo custo, e era exatamente o que fazia: em seu automóvel, rasgando o asfalto a 70km/h, atravessando uma tempestade, corria do fantasma de seu pai em direção a seu futuro.
Desde jovem, fez de tudo para fugir da morte que acometeu seu pai. Fundou sua indústria para livrar-se da roça; viveu sozinho para não ser apequenado pela família; fizera fortuna para não ser outro miserável a ser esquecido. Mas agora, só o que via ao olhar para janela era a imagem do pai em si.
Um arrepio subiu-lhe pela coluna. Sua cabeça ficou pesada e ele teve que baixá-la. Tirou os olhos da janela e lançou-os para o assoalho do carro. E, ali. viu algo ainda pior. Bem ali, debaixo do banco, estava a pasta; a pasta com “exames inconclusivos”; a pasta que deveria enchê-lo de esperança; a pasta em cuja capa lia-se seu nome, um nome que continha Júnior.
Uma palavra, uma maldição. Era demais, mas era isso. Ao ver novamente a pasta, soube que morreria igual a todos os que vieram antes dele. Morreria um júnior — a não ser que fizesse algo a respeito. E por isso tinha que chegar na fábrica; tinha que chegar o quanto antes.
“Mais rápido, homem!”, gritou.
“Tamo indo o mais rápido que dá, doutor.”
“Ultraje! Estamos perdendo para o trem, homem!”
“O trem…”, repetiu para si, e tão súbito quanto um relâmpago, uma ideia irrompeu em sua cabeça*.* Precisava vencer o trem.
De repente, o Dono da Fábrica sabia exatamente o que fazer. A partir daquele momento, nada mais importava. Nem a doença, nem a morte, e nem o fantasma de seu pai. Nada poderia lhe impedir de entrar para a história. Estava convicto. Seria para sempre um homem do futuro… mas apenas se conseguisse colocar a ideia em palavras; apenas se conseguisse dizê-la.
Por uma fração de segundos, no banco detrás daquele carro, houve um fenômeno que jamais se repetiria em toda a história. Nunca mais os músculos mímicos de alguém expressaram com tamanha perfeição, e de uma só vez, tanta alegria e tanto desespero. Pois, naquele instante, aquele velho homem recebeu a maior missão de sua vida: não deixar aquela ideia morrer.Precisava chegar à fábrica para anotá-la. Precisava salvá-la. E, para tanto, segurava a cabeça com as duas mãos para que ela não fugisse. Com toda força, tentava exprimir aquela ideia pelos lábios. Mas só o que dizia era “rápido homem, mais rápido!". E, quanto mais dizia, mais seu motorista pressionava o pedal, e mais a chuva apertava do lado de fora.
Uma corrida épica começou: o motorista contra a noite e a chuva; o Dr. contra o esquecimento.
Dr. nunca fez tanta força em toda sua vida. Lutou até não poder mais. E quando estava quase desistindo olhou para a janela e viu: ao final da estrada surgia a luz tímida e tremeluzente da lamparina elétrica de seu escritório, sempre acesa. Ergueu-se, imponente e majestosa, a sua fábrica no parabrisa e, com ela, a visão do futuro. Naquele instante, Dr. viu exatamente o que aconteceria: abriria a porta da fábrica, subiria as escadas, entraria em sua sala, sentaria em sua poltrona e consumaria sua ideia. Veria seu nome marcado na história. Veria-se livre do fantasma de seu pai.
Sentia-se leve, o velho homem, como se flutuasse — e, mais uma vez, estava certo. Pois o carro, que ainda viajava a toda velocidade, começou a aquaplanar. A poucos metros da fábrica, o asfalto abandonou por completo as rodas, e o Dono da Fábrica viu o mundo girar. Da janela, viu a fábrica, depois o asfalto, depois o céu, e depois o asfalto.
O carro rodou como tinha que rodar. Capotou como havia de capotar. E parou como quis parar.
Do lado de dentro, apenas um dos corpos respirava com convicção, com consciência. Era uma respiração ofegante, pesada e desesperada de um homem velho que quase perdeu uma grande ideia. No banco de trás do automóvel, aquele corpo doente, em suas últimas forças, se desentranhou de si mesmo, soltou o cinto de segurança e, sabe-se lá como, arrastou-se para fora do carro.
Deitou com as costas no asfalto e respirou fundo. Agora o tempo não importava mais. Decidiu que salvaria o que dava para ser salvo.
Engatinhou até o carro e se esforçou para resgatar seu fiel companheiro: tirou seu chapéu dos escombros e colocou à cabeça. Depois esticou a mão para salvar quem mais o ajudava a se deslocar: pegou sua bengala e usou-a para pôr-se de pé. Por fim, olhou para seu motorista e lamentou.
“Está morto,” disse contra a chuva e soluçou.
Dr. nunca soube lidar bem com a morte. Sempre evitou os funerais. Mas agora seria inevitável: a morte estava bem diante de si.
Chorou e se lamentou durante todos aqueles metros. Chorava por aquele homem tão nobre e tão generoso, que tanto serviu aos outros, que sempre trabalhou com afinco. Chorava porque morreria e não poderia ver seu nome se eternizar no tempo.
Mas era isso: havia chegado. Não faltava mais nada senão abrir aquela fechadura, subir as escadas, aconchegar-se em seu escritório e dar vida à sua ideia. Ele havia conseguido.
Apalpou os bolsos do colete e achou o molho de chaves. Pegou-as e quis abrir a porta. Mas era noite: era noite e chovia, e precisava de luz para encontrar a chave certa.
O Dono da Fábrica pôs se a rir. “Mais essa; ainda tenho que achar a chave certa.” Deu alguns passos, parou à luz da janela, e ergueu o molho de chaves acima da sua cabeça como quem faz um brinde. “Um brinde à vida, à grandeza e ao futuro.”
E quão sortudo era aquele homem! Pois só um homem com tamanha visão teria visto o que ele viu. Da noite densa, viu um raio descer do céu e gentilmente tocar as chaves em sua mão.
E tão certeiro quanto aquele raio foram as previsões do Dono da Fábrica. Acertou quanto à sua morte: não morreu como seu pai. E também acertou quanto à eternização de seu último feito. Muitos anos depois de sua morte, quem visitasse a praça da matriz de Eberaldo Soarez ainda veria uma placa com a homenagem:
“Em memória de Ermelino Augusto dos Santos Júnior, um ávido trabalhador e um bom amigo. Um excelente motorista que viveu e morreu a serviço do dono da fábrica.”
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